03/03/2007 17:48
PRA LÁ DE POLÊMICA


Opa, que eu passo um tempo fora, mas sempre volto. Desta vez para discordar um tantinho de um sujeito que admiro e que é dos melhores na internet tupiniquim atualmente: Reinaldo Azevedo, blogueiro da Veja (tô com preguiça de lincar, entrem no saite da revista e leiam o caboclo, que vale a pena). O tema é pra lá de espinhoso, mas aqui nesta trincheira estamos acostumados com as bombas, então vamos lá, falemos sobre aborto.
No geral, achei o texto do Reinaldão equilibrado, como de costume, mas me incomodou a referência depreciativa ao economista americano Steven Levitt, cujo livro Freakonomics li e recomendo. Seguem abaixo o texto que ele publicou, acompanhado do comentário que deixei lá. Opinem também vocês cinco ou seis que ainda dão as caras por aqui.


Um pouco de desalento e muita estupidez

O que há de mais interessante num blog é que os leitores percebem quando há um certo desalento do blogueiro, quando ele se entusiasma com alguma idéia, quando fica de saco cheio. Muita coisa no Brasil enche o saco, e é o caso da política — matéria principal de que trato aqui. Não sei quantos atentaram para o que há de ironia amarga no podcast do Diogo Mainardi — do jeito dele, de quem nunca se rende. Resumo assim: ele não disse que a literatura é ontologicamente inútil. Ela tem sido inútil no Brasil. Não sei se entendem... Por isso estamos um tanto condenado a Lula e afins.

O desalento da hora vem por conta das tolices que o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), disse sobre a legalização das drogas e do aborto. O primeiro a lhe chamar delicadamente à razão, com decoro, porque é um homem de bem, foi o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), em artigo hoje na Folha (reproduzido abaixo). Justamente Gabeira, o decano do debate sobre a descriminação das drogas. Se fosse petista, o deputado verde simplesmente diria que agora mudou de idéia: que já foi favorável à legalização das drogas e agora não é mais. Como é um homem sujeito a aprender, não repudiou a proposta, mas lembrou suas dificuldades práticas.

Vamos ver. Cabral se diz favorável a que a droga, comércio e consumo, deixe de ser crime. No que concerne a decisões individuais, está certíssimo. Consome quem quer. Mas ele mesmo lembra que teria de ser uma decisão, digamos, mundial. Uau! Seria a primeira vez na história em que uma espécie de governo planetário, imbuído da paz perpétua kantiana (devo escrever ironia em outra cor?), tomaria uma decisão realmente coletiva. Nem o Protocolo de Kyoto emplacou com essa abrangência. Como isso não vai acontecer, então a proposta é inútil.

Mas há um segundo aspecto, lembrado por Gabeira em seu artigo — não, não estou fingindo que Gabeira é meu aliado; não é: não costumo expropriar teses alheias ou me apropriar delas para ter companhia. O narcotráfico é uma economia paralela. Eu não sei se, no desenho cabralino, a maconha passaria a ser vendida pela Souza Cruz e pela Philip Morris... Mas quero crer que estaria submetida mais ou menos às formas de controle a que está submetido o tabaco, por exemplo. A mão-de-obra hoje empregada no narcotráfico, num país em que o desempenho está quase em 10%, iria fazer o quê? É claro que essas pessoas migrariam para outras formas de delito: roubo de carros, assalto a bancos e residências, narcotráfico...

Narcotráfico? Sim. Assim como o cigarro — e sou fumante —, a despeito de todas as substâncias venenosas, está submetido ao controle de substâncias tóxicas, também a maconha e a cocaína, por exemplo, teriam, suponho, de passar por alguma forma de vigilância social, não é mesmo? O desdobramento óbvio seria qual? O aparecimento de formas mais agressivas das duas substâncias, anunciando um “barato” ainda maior. A proposta de Cabral, como se vê, ignora que o tráfico é um pedaço da economia informal. No cargo há dois meses e três dias, é notável que ele não tenha tido ainda uma boa idéia para uma polícia eficiente, mas já tenha estabelecido o primeiro item da paz perpétua kantiana.

Quanto ao aborto... Claro, claro, o “direitista” sou eu, e “progressista” é o governador. Mas parece que ele acredita na tese de Steven Levitt, o aloprado fascistóide (ou “comunistóide”, tanto faz) de Freakonomics, segundo a qual a violência caiu nos EUA por causa da facilitação do aborto. Por que pensar pela metade? Admitido o princípio, por que não uma solução menos traumática e mais barata? Esterilizem-se em massa, por determinação do Estado, as mulheres e homens pobres, ora essa. Já que os pobretões são incapazes de escolhas morais, que sejam impedidos de nascer. Reparem que essa tese é uma derivação da consideração lulista de que a violência nasce da pobreza. Sei que feto não é gente em Banânia — a não ser quando é para reivindicar (e ganhar) indenização do Estado —, mas não custa, na dúvida, resolver o problema na origem.

Alguns amigos me perguntam como consigo ser católico tendo lido mais de dois livros. Vai ver é por isso — e acredito, claro, que possa haver um humanismo esclarecido e leigo. Vivo, como todo mundo, mergulhado em algumas dúvidas. Talvez eu integre um pequeno grupo de homens que mais querem crer do que conseguem crer, o que não deixa de ser um peso. Quanto mais, no entanto, passa o tempo, verifico que o cristianismo — no caso da minha escolha (intelectual, admito), o catolicismo —, é um norte ético contra o horror e a facilidade com que a dita razão mergulha na estupidez, no empirismo puro, no experimentalismo cego.

Eu poderia avançar um pouco mais, não fosse o monstro da suspeita de que pode ser inútil, que sempre se alevanta no horizonte. Esse tipo de razão prática — “Faça-se o necessário” — já matou muito mais e espalhou muito mais horror do que qualquer vocação religiosa, por mais crente que seja em escatologias e finalismos. Minha escolha intelectual pelo catolicismo — e Bento 16 vem por aí — talvez derive do fato de que a Igreja Católica ainda é uma instituição influente o bastante para ao menos combater a idéia de que a cureta é um instrumento moral ou civilizatório.



Caro Reinaldo, peço licença para meter a colher em um ponto dessa polêmica. A meu ver, tudo que Steven Levitt fez em seu livro foi compilar e cruzar dados, sem extrair nenhuma conclusão ou pretender balizar uma, digamos, "nova moral". Como economista que é, interessa-se por números, e é deles que extrai subsídios para sustentar (ou derrubar) idéias. No caso da relação entre a taxa de criminalidade e a legalização do aborto, de longe o capítulo mais incendiário de seu Freakonomics, ele fez questão de ressaltar que não defende o aborto - até, inclusive, por ser pai. Mas para ficarmos apenas na relação de causa e efeito - coisa simples de estabalecer, mas que causa imensas dificuldades aos petralhas, hehehe - pareceu-me óbvio que a imensa quantidade de abortos realizados desde 1973 influiu, sim, nas taxas de criminalidade da década de 1990, época em que muitos daqueles fetos (lamentavelmente) abortados estariam chegando à idade adulta.
Aqui cabe uma distinção: nos EUA essa conversa mole de que a causa da violência é social pode encontrar eco nos ongueiros e malucos-beleza, mas nem de longe é "política" de governo (??), como cá em Banânia, onde Nossoguia só faz passar a mão na cabeça da bandidagem. Parece-me que lá, nos EUA, historicamente a terra das oportunidades e berço das políticas compensatórias e das "ações afirmativas", a análise de Levitt não é disparatada, especialmente se tomarmos os dados referentes a outros países, como a Romênia de Ceaucescu (brrr) que ele compila no livro - lá, no que já foi modelo para partidos da 'izquierda' tupiniquim, a legalização do aborto não moveu vírgula nas taxas de criminalidade, embora tenham sido feitos, em termos relativos, muito mais abortos que nos EUA.
Bem, há quem diga que Levitt manipulou dados para avalizar suas teses, mas até hoje ninguém apresentou (ou eu não vi) as provas de que o citado autor seja um farsante, mentiroso - ou os dois.
Não vi a declaração de Cabral sobre o aborto, apenas as que falam nas drogas, mas desde já me oponho a qualquer mudança nesse sentido. Num país onde o governo federal pretende distribuir camisinhas a adolescentes, incentivando o sexo irresponsável e fomentando milhares de gravidezes precoces, flexibilizar as regras para o aborto equivalerá a abrir um abatedouro de gente.


enviada por Alessandro Ferreira






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